“o olho aberto é um órgão do mundo, o olho fechado torna-se órgão do corpo.”  Gonçalo Tavares

 

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Esta pesquisa aborda a transitoriedade da nossa existência. Já que somos transitórios, nascemos para caminhar em deriva até o nosso desaparecimento. Somos apenas seres vagantes flutuantes no espaço por um tempo indeterminado. Errar é humano est. Caminhamos errantes para sonhar com nossos pensamentos incógnitos, desbravar os lugares que só a imaginação inventa, os desejos que habitam nossos passos.

Vivemos a vulnerabilidade da pele que habitamos, o limite do corpo que esconde mal o desgaste, que sofre para aprender a aceitar a imperfeição. Enquanto passeamos pelo espaço, aprendemos sobre beleza da matéria no tempo, a fragilidade, a riqueza de aprender à amadurecer. Cada encantamento acontece lentamente. Vamos lapidando o olhar para a importância do erro, a beleza do envelhecimento, das fissuras melancólicas que cultivam os rastros colhidos pelo caminho. 

O caminho desta vagância parte de um neologismo para vivenciar o que é vago, instala dúvidas para descobrir onde se emergem os vazios da rotina, os pensamentos flutuantes que caminham em direção ao imemorial, naquele exato momento em que o fenômeno alimenta poéticamente o ser. A tentativa é desertar a história pelo prazer de coexistir despercebido dos vícios da ocularidade, dos preconceitos existenciais e da memória cunhada no tempo. Já que somos provisórios, caminhar em direção a um território vazio possibilita transitar em órbita atraído pela emergência poética do momento presente, e assim, estar preparado para capturar o que salta. Aqui, todo experimento de vagância é também um treinamento de sensibilidade para aprender a evaporar, um processo de troca para renovação, a partir da fusão entre o que está dentro e fora.

O recorte da minha pesquisa sugere atravessar caminhos para encontrar a imensidão do homem imóvel, esvaziar-se como um ponteiro que se desgarra do corpo do relógio para desaguar no presente congelado sem tempo. Proponho o risco de divagar até o infinito e flanar pelo estado de suspensão do cotidiano só para mergulhar em cada instante, e em cada parada, reedificar o vazio dispensando toda a bagagem possível. A experimentação parte da premissa que a arte é um manifestação companheira do tempo presente e para isso é preciso esvaziar regularmente o passado para emergir a cada momento num diálogo constante com o aqui e agora. Para construir é preciso habitar. A prática deste hábito diário tem o interesse de realizar um projeto de construção de uma ponte imantada em direção ao horizonte.

Ando em círculos para desconcentrar.
Abordo qualquer território pela incerteza ocular.
Desenho uma linha no escuro sobre um mapa.
Alimento o avesso.
Desconfio de todas as funções.
Dispenso toda memória que constitui subjetividade.
Sonambulo pelas nuances transitórias da deriva.
Considero todo objeto no caminho como um dispositivo de memória.
Coleto alguns objetos para escolher ser atingido.
Diluo poesia em imagem somente quando desnecessário.
Procuro caminhos inúteis entre ideias.
Dissolvo qualquer morfologia possível de acaso.
Penso em órbita.
Redireciono dúvidas para aprender sobre multiplicidade.
Manipulo o acaso com deriva em direção ao horizonte.
Construo planetas desertos.